segunda-feira, 31 de maio de 2010

tecidos sobre a pele


as marcas do homem no planeta: - fotos: artur gomes






































Terra
antes que alguém morra
escrevo prevendo a morte
arriscando a vida
antes que seja tarde
e que a língua da minha boca
não cubra mais tua ferida


entre/aberto
em teus ofícios
é que meu peito de poeta
sangra ao corte das navalhas
e minha veia mais aberta
é mais um rio que se espalha


amada
de muitos sonhos
e pouco sexo
deposito a minha boca
no teu cio
e uma semente fértil
nos teus seios como um rio


o que me dóié ter-te
devorada por estranhos olhos
e deter impulsos por fidelidade


ó terraincestuosa de prazer
e gestos
não me prendo ao laço
dos teus comandantes
só me enterro à fundo
nos teus vagabundos
com um prazer de fera
e um punhal de amante


minha terra
é de senzalas tantas
entrerra em ti
milhões de outras esperanças
soterra em teus grilhões
a voz que tenta - avança
plantada em ti
como canavial que a foice corta

mas cravado em ti
me ponho a luta
mesmo sabendo - o vão
- estreito em cada porta


Usina
mói a cana
o caldo
e o bagaço

Usina
mói o braço
a carne
o osso

Usina
mói o sangue
a fruta
e o caroço

tritura
suga
torce

dos pés até o pescoço

e do alto da casa grande
os donos do engenho
controlam: -

o saldo e o lucro.

Artur Gomes

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